Criações que reúnem valor cultural, técnica e criatividade, resultantes de trabalho predominantemente manual e que expressam a identidade do povo baiano compõem o vasto repertório artesanal do estado da Bahia. Bordados, carpintaria, cerâmica, cestaria, costura, papietagem, renda, tapeçaria, tecelagem, entre outras tipologias, unem tradição e inovação, numa intrincada rede de influências e origens.

A Baía de Todos-os-Santos é berço da tradição da cerâmica Aratu e da nossa miscigenação cultural, pródiga em cheiros, sabores e ritmos. Por mãos afro-brasileiras, nessa região, são produzidas rendas de bilro, bordados em richelieu e barafunda, entre outros, cerâmicas moldadas a mão e miniaturas de saveiros. A área abriga também o maior centro oleiro de cerâmica utilitária da América Latina, Maragogipinho, no município de Aratuípe.

Do litoral aos limites do sertão, o Agreste foi forjado pelas lutas e pela conquista da casa Garcia d’Ávila. Marisqueiras e pescadores transformam a palha da piaçava em esteiras e bolsas multicoloridas que contrastam com a singeleza da cerâmica de Rio Real. O bordado em redendel de Inhambupe e renda de bilro de Dias d’Ávila trazem a delicadeza das mãos femininas. Outros bordados, à máquina ou à mão, são característicos do Território do Litoral Norte e Agreste.

Nascidos da corrida pelo ouro e pelo diamante, os municípios da Chapada Diamantina guardam expressões únicas que refletem a beleza do seu relevo, da sua fauna e flora. Cidades tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional são o lar de tradições como o crivo rústico de Rio de Contas, um celeiro de diversas manifestações populares. Em Andaraí, o colorido da Festa do Divino se traduz em bordados multicoloridos com a participação de toda a população, fé que se expressa também pelas mãos de seus mestres santeiros. Pedras se tornam preciosas pelo trabalho dos lapidadores e escultores. Morro do Chapéu representa toda a beleza de sua flora em sofisticados fuxicos de retalhos.

Do sertão do Conselheiro à margem do Rio São Francisco, o Norte da Bahia congrega artífices que traduzem a beleza árida da caatinga em produtos do viver cotidiano. A palmeira do licuri simboliza essa força, matéria-prima de trançados variados e alimento das araras azuis. Mulheres guerreiras, presentes em toda cadeia da produção do sisal, unem cânticos à produção artesanal. Redes de dormir embalam a tradição indígena. A culinária guarda o sabor especial das panelas de barro moldadas a mão e queimadas em fornos de telhas.

Nos territórios da Costa do Dendê e Jiquiriçá, praias e ilhas cercadas por manguezais e uma exuberante Mata Atlântica abrigam balneários multiculturais, verdadeiras esquinas do mundo, e comunidades quilombolas que, a partir das diversas espécies de palmeiras, como o dendê, a piaçava e o coco-da-baía, produzem biojoias e trançados, que expressam toda a força cultural afro-baiana. Aliada a isto, a fertilidade do Vale do Rio Jiquiriçá proporciona a produção de trançados em fibra de bananeira e cipó e, ao se aproximar do sertão, revela expressões da cerâmica utilitária de Itatim, dos trançados em fibra de licuri em Santa Terezinha e Iaçu.

A região da Costa do Cacau possui a figura de Jorge Amado como seu maior narrador. Guarda histórias e tradições expressadas através de santeiros barrocos, que moldam argila, bordadeiras e bonequeiras, que reproduzem a fauna e a flora, como o mascote da região, o mico-leão-dourado. São João da Panelinha reúne artífices que aproveitam os recursos da Mata Atlântica de forma sustentável, produzindo artefatos utilitários com cocos e madeiras resgatadas das culturas agrícolas locais.

Visitantes de todo mundo tornaram a Costa do Descobrimento um espaço multicultural e internacional, no qual diversas expressões do artesanato encontraram um porto, ao lado da força da resistência e cultura indígena, que se expressa através do artesanato pataxó. São adornos corporais com sementes, instrumentos musicais e objetos do cotidiano. Esta constante troca influencia também a produção artesanal no interior da região, que emprega matérias-primas nativas em composições contemporâneas.

Nos Territórios do Sudoeste, a cultura do algodão imprimiu sua força na agricultura familiar, que continua a sua produção doméstica, da plantação da semente à tecelagem, passando pelo bordado e pela marambaia, denominação regional do macramê. Bordados e rendas de fino acabamento lembram o esmero da produção artesanal dos sequilhos e biscoitos. Moringas e panelas produzidas no município de Condeúba dão um toque caseiro à cozinha regional. Finos trançados de ginete em Boa Nova tornam mais floridas as tramas regionais.

As sombras das veredas dos buritis dos Territórios do Oeste, a romaria de Bom Jesus da Lapa e a beleza da cidade de Barra, unidas pelo Rio São Francisco, revelam trançados de fibras e cerâmicas figurativas, que expressam a fé do seu povo. As figuras de proa das embarcações do Velho Chico, que têm sua expressão maior na tradição das carrancas do Mestre Guarany, continuam a representar a cultura ribeirinha, que ainda hoje emprega potes e moringas de produção regional para armazenamento da água. As cantigas das festas estão também presentes nos bordados multicoloridos do município de Santa Rita de Cássia.

Sustentabilidade, inclusão, tradição e criatividade estão expressas na produção artesanal do estado da Bahia. Além do valor sociocultural, a atividade possui relevante valor econômico e é responsável pela geração de renda de milhares de famílias de trabalhadoras e trabalhadores baianos.

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