Peças artesanais do Carnaval de Maragogipe: um fazer secular passado entre gerações

Longe dos trios elétricos e pipocas de Salvador, no Recôncavo da Bahia, o Carnaval de Maragogipe mantém cerca de 100 anos de tradição e é uma grande experiência cultural de alegria. As ruas são tomadas por pessoas mascaradas, grandes caricaturas, bloquinhos e marchinhas com sons de instrumentos de sopro e percussão. O fazer artesanal de Memeu Barbudo é parte das festividades, com suas máscaras, fantasias e cabeçonas.

A festa é Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2009 e reúne manifestações espontâneas que revivem expressões culturais do século XIX e possuem inspirações ainda mais antigas. Da Roma Antiga a Veneza, o Carnaval de Maragogipe é um verdadeira homenagem à pluralidade cultural e um legítimo encontro do passado com o presente.  

As máscaras e indumentárias artesanais seguem resistindo à produção industrial dos novos tempos e apresentam influências de culturas pagãs e cristãs europeias incorporadas às africanas e indígenas do Brasil. O artesão Bartolomeu Conceição dos Anjos, conhecido como Memeu Barbudo, é um grande carnavalesco e entusiasta da festa de rua. Cheio de saudades dos carnavais anteriores à pandemia, contou ao Artesanato da Bahia um pouco sobre suas peças. 

Além de confeccionar fantasias e máscaras, Memeu é famoso por produzir “cabeçonas”, grandes caricaturas feitas em papel machê, papel cimento ou papel jornal, com moldes de barro, que surgem espontaneamente de sua imaginação enquanto são produzidas.

“Eu não desenho, cada uma dessas cabeças é diferente das outras. No momento em que começo a trabalhar com o barro para fazer a caricatura, vai saindo a inspiração e quando eu vou fazer outra, já faço diferente”, afirmou o artesão sobre o processo de produção das peças que não incluem esboços com lápis e papel.

A tradição familiar também é forte, Memeu Barbudo aprendeu a fazer máscaras de carnaval com seu avô. “Meu avô fazia e eu ficava olhando, gostava de ver ele fazer. Ele foi o mestre”, disse sobre a passagem do fazer de geração em geração na família.

Hoje, o artesão produz blocos, costura, faz música, toca instrumentos e o principal: diverte-se muito. “Eu sou um dos maiores carnavalescos daqui, saio mascarado todos os três dias e saio no Bloco do Silêncio”, acrescentou Memeu, que também participa orgulhosamente do tradicional bloco (do Silêncio), onde os participantes se vestem de almas e urram à meia-noite dando início ao carnaval na cidade.

As produções do artesão se expandiram muito. Nos últimos anos, as “cabeçonas” já foram exibidas na entrada da Casa do Carnaval, em Salvador, e até mesmo fora do Brasil, em Portugal, lugar a que Memeu já foi mais de uma vez devido ao trabalho artesanal. 

Além disso, o artesão já conheceu mais de cinco países. Tudo isso devido ao êxtase provocado por suas peças que carregam a beleza e emoção de uma das mais belas festas do Brasil.

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